sexta-feira, março 5

Acima das palavras

 É quase impossível descobrir onde as letras precisam ser separadas. Como se as palavras tivessem apenas uma grafia, um sentido. E nada mais em torno disso necessitasse ser desvendado. Uma palavra emendada na outra, um dia idêntico ao que acabou. Ou começou? Nada faz mais sentido. Um risco, um desenho buscando comprovar o sentido, a realidade a autenticidade, o mundo. Não há como mais emendar muito menos separar. Agora tudo está unido e o mundo deixa de ser a roda gigante que apenas girava da direita pra esquerda no seu eixo e passa a ser a locomotiva, que aguçada, dispara rumo ao infinito recheada de pessoas emendadas, palavras soltas, incógnitas e sonhos arrasados.


As palavras deixaram de ser parte, de ser tudo, de ser complemento, razão. Para se perder na infinidade do crescimento, escorrer das mãos como a água que surfa nas ondas do mar. Voaram como papel em meio a tufão e o que era meu contorno, meu consolo é agora um emaranhado de linhas desenhadas sem sentido em uma folha branca em um canto qualquer. Então o texto perdeu o significado, a veracidade. Levando a poesia, sem mais melodia, para onde nem mais os olhos pudessem compreender.


A subjetividade humana e das relações pessoais, passaram a impossibilitar a vivência plena das comunidades. É como se agora o mundo estivesse em alta rotação como um antigo vinil tocando sem parar no esquecido toca-discos do museu. O mundo perdeu o pincel fino, que após mergulhar nos potes coloridos de tinha pintava os dias levando saudosismo aos que se permitiam tempo para ler as delicias da simplicidade do que está em torno de nós. Agora, um pincel groso, de certas envelhecidas, duras e descabeladas despeja escuridão em tons cinzas, amargos.


É como se as palavras fossem também desenhadas de forma invisível. O que são as palavras? Um desenho? Um rabisco definido como letra, como sentido que faz todos acreditar no que deciframos? E quem nos garante que realmente vemos o que queremos ou que está emitido? A mediocridade não permite mais que os humanos pintados de cinzas entendam as palavras. Elas estão emendadas, grafadas erradas, pintadas de tintas transparentes, não mais estão ali onde não se vê e não está.


O que consentimos hoje não se permitia ontem. As avaliações estão alteradas, as emoções trocadas. Há termino de relações como começos de guerras e há fim de guerras como inicio de amores. O mundo não sabe mais onde começou e de que forma gira. O ser humano cada hora pensa de alguma forma e não se compromete com nada. Falta gratidão, gentileza. Faltam sentidos para os desenhos pintados na folha de papel branca esquecida no fundo da velha biblioteca. O mundo não é mais simplesmente. As ruas não levam mais aos lugares conhecidos, as casas não abrigam com segurança e os alimentos não sustentam os que habitam entre os calvários e as florestas.


O eco que recebemos é o reflexo negro do que ofertamos. Como batidas graves de um velho trompete na boca de um absoluto desconhecedor da arte musical. Como um ateu lendo as escrituras sagradas ou ainda como um incrédulo olhando o santo sudário. E o que coroamos perdeu a realeza, tornou-se peão que rodopia perdido em uma sarjeta da periferia. O balanço que vai e vem, perdido na praça destruída seguro apenas por um pendulo. O grito do urubu em cima de um corpo qualquer, ali deitado ao seu lado, ao meu lado. Em lado qualquer.



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