terça-feira, agosto 11

A formação do jornalista e os interesses da sociedade



Mais um mestre da ECOS/UCPEL. Segue texto do professor Dr. Antonio Heberlê ....

escrito por Antonio Heberlê*

O jornalismo é uma esfera decisiva da vida social, porque as pessoas elaboram juízos de valor e interpretações dos fatos com base, principalmente, nos relatos jornalísticos das diferentes áreas do conhecimento. Nas sociedades complexas de hoje, as pessoas não têm acesso direto aos fatos mais importantes, capazes de impactar suas vidas e dos grupos de convívio imediato, mas por meio dos relatos jornalísticos. A experiência mediada faz com que esses relatos não sejam, portanto, algo de segunda categoria. Assim, ao contrário do que foi feito recentemente no Brasil, não se pode tratar a profissão com desdém. Jornalismo é uma profissão bem definida, que exige para o seu exercício técnicas e conceitos apropriados.

Acontece que é da circulação da informação e do conhecimento que se abastece a atividade jornalística, ao se configurar num processo que trata das revelações de versões da realidade cotidiana. E sabe-se que há muitas formas de contar um fato, eis que a ideologia do contador é uma e se choca com a ideologia do especialista e do veículo, e chega aos receptores recheada dos interesses dos demais setores da sociedade. A formação universitária se impõe, como lugar específico para pensar esse contexto e todos que desejarem fazer jornalismo sério devem sentar nos bancos para refletir e obter esta formação.

O jornalismo é elemento tão essencial e corriqueiro do cotidiano na atualidade que tornou-se “familiar”. Por isso parece “fácil” fazer jornalismo. Não é. A familiaridade contribui para ocultar do público a complexidade das operações que os jornalistas realizam desde a observação do fato relatado até a composição do relato, em sua forma final, isto é, a forma como é apresentado ao público, como reportagem. Permanece invisível toda a numerosa série de escolhas que os jornalistas precisam fazer para chegar ao seu “produto” final. E essas escolhas estão impregnadas por questões relacionadas aos poderes econômico, político, social e cultural, de um lado, e à ética jornalística, de outro. São, frequentemente, escolhas tensas, pois o mais comum é que haja discrepância entre os interesses dos detentores dos diversos tipos de poder e a disposição do jornalista profissional de revelar, de desnudar tais interesses para o público. Veja-se o Brasil recente.

O jornalista deve a todo tempo fazer reflexões sobre o que faz e do seu papel na produção da informação. Essa necessidade de consistência e consciência social se procura ensinar nas universidades. Nem sempre a academia está capacitada, é feliz ou eficiente em traduzir isso aos seus alunos. Mas isso é outra coisa. Boa para discutir, pois há uma expansão sem medidas da formação universitária brasileira, que atinge todos os cursos.

Importante que todos saibam que mesmo com a falibilidade humana, a referência e a fidelidade aos fatos é condição ideal para a atividade jornalística e nela reside muito do prestígio da atividade e do seu poder enquanto campo de conhecimento. A forma de apresentação das notícias, portanto, é um aspecto importante da distinção entre o exercício do jornalismo e outras traduções referenciadas em fenômenos evidentes ou de fragmentos da realidade, como a área da justiça, da polícia criminal e do próprio conhecimento sistematizado.

Por isso, é possível dizer que mesmo sendo o jornalismo uma prática profissional que deve acontecer com técnicas específicas, é essencialmente uma instância social, que envolve rotinas na busca da verdade, como faz a própria ciência com a rotina de seus métodos. Afinal, não é demais dizer que o jornalismo também se ampara em métodos de investigação bem definidos na sua deontologia e em manuais de redação, “que têm a utilidade de código de referência para a abordagem dos fatos”, como diz o professor Ronaldo Henn.

Ou seja, não se pode esquecer que se está diante de uma sequência interpretativa, um processo que acontece inseparável da realidade. Sempre, pela sua natureza, uma visão parcial e por isso falível (Isto também vale para a ciência, não obstante trabalhe de um modo sistemático e rigoroso para fixar ou produzir a crença) do mundo, realizada pelo receptor da informação, que lerá o fato a partir dos seus pressupostos e provavelmente o traduzirá para si mesmo e para outros e assim por diante. Inimaginável o número de versões possíveis quando se sabe do amplo acesso pela sociedade aos diferentes meios técnicos hoje.

Pode-se falar, então, da operação jornalística como a própria essência moderna da publicização de todos os discursos. E são muitos os interesses que esses discursos despertam, porque cada grupo social quer ver a sua como a verdade absoluta, sendo que só vale a informação publicizada, porque é ela que institui o que é a realidade. Mais do que isso, porque os discursos podem ser agregados de manifestações verbais e não-verbais. A possibilidade de remissão está cada vez mais ampliada e facilitada pelas edições on-line dos jornais e pelas informações livres colocadas à disposição da sociedade pelos aparatos tecnológicos de uso individual. Esse fenômeno, ao contrário do que possa parecer, vai exigir ainda maior habilidade aos jornalistas, pessoas que são treinadas para as esferas da codificação e da decodificação.

Por isso, não se pode ser ingênuo ao analisar a questão, porque muitos são os interesses pela operação do jornalismo na teia social. Nesse jogo aparecem falsas questões, como se fossem centrais e fala-se de uma coisa como se fosse outra. São discursos que atendem a interesses particulares e não conseguem disfarçar quais sejam. Por isso é infeliz mas compreensível que se desqualifique em rede nacional a grandeza e a responsabilidade de uma profissão legítima, cujo corpo teórico está desenvolvido e conta hoje com inúmeros cursos de pós-graduação, com reflexões de alto nível. Uma pena, por um lado, mas uma vitória por outro, porque que há indícios que a própria sociedade está se dando conta da importância do jornalismo, observando que a todos compromete, portanto, um jornalismo fragilizado. Reside ai esperança, de que os representantes desta sociedade sejam induzidos a valorizar novamente a formação em jornalismo neste País. E isso também depende de uma boa e vigilante prática social do ser e do fazer jornalístico.


*Doutor em Ciências da Comunicação, pesquisador em comunicação na Embrapa Clima Temperado, professor de Jornalismo na Universidade Católica de Pelotas e avaliador de cursos do MEC/INEP.

Nenhum comentário:

Postar um comentário